Corretagem é um dos custos mais ignorados por quem começa a investir — e, ao mesmo tempo, um dos que mais impactam o resultado no longo prazo.
Muita gente escolhe ativos com cuidado, pensa em diversificação, prazo e risco, mas não presta atenção em quanto paga para investir.
Na prática, pequenas taxas recorrentes podem consumir uma parte relevante dos ganhos ao longo do tempo.
Além disso, o tema costuma gerar confusão. Corretagem zero é realmente zero? Quando ela é cobrada? Quais investimentos ainda têm esse custo?
Ao longo deste artigo, vamos detalhar como a corretagem funciona, seu impacto no retorno dos investimentos e as formas de reduzir esse custo. Confira!
O que é corretagem?
Corretagem é a taxa cobrada pelas corretoras de valores para intermediar operações de compra e venda de ativos financeiros.
Quando você compra ou vende ações, fundos imobiliários, contratos futuros ou outros ativos, não negocia diretamente com a bolsa. A operação precisa passar por uma corretora, que executa a ordem em seu nome.
A corretagem é a remuneração desse serviço — funciona como uma comissão paga para acessar o mercado.
Ela pode ser cobrada como um valor fixo por ordem (por exemplo, R$ 10 por operação) ou como um percentual sobre o valor negociado.
Para que serve a taxa de corretagem?
A taxa remunera a corretora pelos serviços envolvidos na operação, incluindo:
- plataforma de negociação;
- roteamento e execução de ordens;
- custódia de ativos;
- suporte ao cliente;
- relatórios;
- cumprimento de exigências regulatórias.
Em outras palavras, as corretoras têm custos relevantes com tecnologia, equipe, infraestrutura e regulação.
Então, historicamente, a corretagem era a principal fonte de receita para cobrir essas despesas e gerar lucro.
Com o aumento da concorrência e a evolução do mercado, muitas corretoras reduziram ou zeraram a corretagem e passaram a buscar outras fontes de receita, como:
- spread;
- produtos financeiros;
- serviços adicionais.
Diferença entre corretagem e outras taxas
A corretagem é apenas uma parte do custo total de investir. Há outras cobranças nas operações:
- Emolumentos: são taxas cobradas pela B3 pelo uso da infraestrutura da bolsa e incidem sobre todas as operações, independentemente da corretagem cobrada pela corretora.
- Taxa de custódia: remunera a guarda dos ativos. Embora muitas corretoras não cobrem mais esse valor, algumas ainda mantêm essa cobrança.
- ISS (Imposto Sobre Serviços): pode incidir sobre o valor da corretagem, dependendo da localidade.
Histórico da corretagem no Brasil
Durante muitos anos, a corretagem no Brasil era elevada. Taxas fixas de R$ 20 ou R$ 30 por ordem eram comuns, e cobranças percentuais podiam chegar a 1% ou mais do valor negociado.
Esse cenário começou a mudar a partir da década de 2010, com a entrada de novas corretoras digitais e a popularização dos investimentos entre pessoas físicas.
Em 2019, grandes corretoras passaram a adotar a corretagem zero para ações, transformando o mercado.
Hoje, para investidores pessoa física, a corretagem zero é padrão em muitas corretoras para ações e fundos imobiliários — embora outros custos continuem existindo.
Como funciona a cobrança de corretagem?
Existem diferentes modelos de cobrança de corretagem. Entenda como cada um funciona:
Fixa x percentual
Na corretagem fixa, a corretora cobra um valor determinado por ordem executada. Por exemplo: R$ 5,00 por ordem, independentemente de você investir R$ 500 ou R$ 50.000 em ações.
A principal vantagem é a previsibilidade: você sabe exatamente quanto vai pagar em cada operação, o que tende a ser mais vantajoso para quem negocia valores maiores.
Já na corretagem percentual, a cobrança é feita como uma porcentagem sobre o valor da operação. Um exemplo seria 0,3% do total negociado.
Nesse modelo, operações menores pagam menos, o que pode ser interessante para iniciantes. Em contrapartida, operações maiores acabam gerando um custo mais elevado.
Por ordem ou por ação
No modelo de corretagem por ordem, você paga uma única taxa independentemente da quantidade de ativos comprados ou vendidos naquela ordem.
Se você comprar 100 ou 1.000 ações da mesma empresa em uma única ordem, o valor da corretagem será o mesmo.
Em alguns mercados, principalmente nos Estados Unidos, existe o modelo de corretagem por ação negociada, no qual a cobrança é feita por unidade. Por exemplo: US$ 0,005 por ação.
No Brasil, o padrão historicamente sempre foi a cobrança por ordem, sendo esse o modelo mais comum.
Corretagem zero: como é possível?
Quando a corretora não cobra corretagem, surge a dúvida: como ela gera receita?
Existem várias fontes. Uma delas é o rendimento sobre o saldo em conta: o dinheiro que fica parado pode ser aplicado em renda fixa, e a corretora fica com parte desse retorno.
Outra é o recebimento de rebates da B3, que devolve uma parcela dos emolumentos para corretoras que geram alto volume de negociações.
Além disso, muitas corretoras ganham dinheiro com a venda de outros produtos financeiros, como fundos de investimento, previdência, produtos estruturados e serviços de assessoria. Publicidade e acordos comerciais também fazem parte desse modelo.
Portanto, corretagem zero não significa que o investidor não gera custo, mas sim que a corretora encontrou outras formas de monetização.
Corretagem em diferentes tipos de investimento

A forma como a corretagem é cobrada varia de acordo com o tipo de ativo negociado:
Ações e ETFs
Para pessoas físicas, a maioria das corretoras oferece corretagem zero na negociação de ações e ETFs no mercado à vista, incluindo estratégias de swing trade, position e buy and hold.
No day trade, a cobrança pode variar. Algumas corretoras mantêm o custo zerado, enquanto outras aplicam taxas específicas para esse tipo de operação.
Os ETFs, por serem negociados em bolsa, normalmente seguem as mesmas regras aplicadas às ações.
Fundos imobiliários
Os fundos imobiliários (FIIs) também costumam ter corretagem zero na maior parte das corretoras.
Essa mudança aumentou significativamente a acessibilidade desse tipo de investimento. No passado, pagar R$ 20 de corretagem para investir R$ 500 em um FII tornava a operação pouco eficiente. Com a eliminação da taxa, é possível investir valores menores sem comprometer o custo-benefício.
Renda fixa
Em investimentos de renda fixa, a corretagem geralmente não existe.
CDBs, LCIs e LCAs não costumam ter cobrança direta da corretora, já que a instituição emissora remunera a distribuição desses produtos por outros meios.
No Tesouro Direto, há a taxa de custódia da B3, de 0,20% ao ano sobre o valor investido. A maioria das corretoras, porém, não cobra taxas adicionais para esse tipo de aplicação.
Já debêntures negociadas no mercado secundário podem ter corretagem, dependendo da política da corretora.
Derivativos
Opções e contratos futuros normalmente possuem cobrança de corretagem, mesmo em corretoras que oferecem taxa zero para ações e FIIs.
Os valores variam conforme a instituição: algumas cobram um valor fixo por contrato, enquanto outras utilizam um modelo percentual.
Para quem opera frequentemente em derivativos, comparar cuidadosamente as taxas é essencial, já que os custos podem se acumular rapidamente com o aumento do volume de operações.
Outros custos além da corretagem
A corretagem não é o único custo envolvido em uma operação na bolsa. Mesmo quando ela é zero, existem outras taxas que impactam o valor final pago pelo investidor:
Emolumentos da B3
Os emolumentos são cobrados pela B3 pelo uso da infraestrutura de negociação, registro e liquidação das operações.
Para ações e fundos imobiliários, a taxa gira em torno de 0,0325% do valor negociado (com pequenas variações).
O percentual parece baixo, mas não é irrelevante. Em uma operação de R$ 10.000, por exemplo, o custo fica em torno de R$ 3,25.
Esse valor vai para a bolsa, não para a corretora, e é cobrado mesmo quando a corretagem é zero.
Taxa de custódia
A taxa de custódia remunera a guarda e a administração dos ativos. Hoje, a maioria das corretoras já não cobra custódia para ações e FIIs, o que era comum no passado, especialmente em bancos.
Em renda fixa, como Tesouro Direto, algumas instituições ainda cobram, enquanto outras isentam totalmente.
Por isso, vale sempre conferir a política de custódia antes de escolher a corretora.
ISS (Imposto Sobre Serviços)
O ISS (Imposto Sobre Serviços) incide sobre a prestação de serviços, incluindo a corretagem.
A alíquota varia conforme o município (geralmente entre 2% e 5%) e é calculada apenas sobre o valor da corretagem.
Se for zero, não há ISS. Caso contrário, o imposto aparece discriminado na nota de corretagem como um custo adicional.
Custo total de uma operação
Na prática, o custo final de uma operação pode incluir: corretagem + emolumentos da B3 + ISS sobre a corretagem + taxa de custódia (se houver).
Exemplo 1 — Compra de R$ 5.000 em ações com corretagem zero:
- Corretagem: R$ 0
- Emolumentos: R$ 1,63
- ISS: R$ 0
- Custo total: R$ 1,63
Exemplo 2 — Mesma operação com corretagem de R$ 10:
- Corretagem: R$ 10,00
- Emolumentos: R$ 1,63
- ISS (5%): R$ 0,50
- Custo total: R$ 12,13
A diferença é relevante, principalmente em operações menores ou para quem investe com mais frequência.
Como a corretagem impacta seus resultados?
O peso da corretagem não é igual para todo investidor. Ele depende do estilo de operação, da frequência das ordens e do tamanho dos aportes.
Em estratégias mais ativas, como day trade ou swing trade frequente, os custos se acumulam rapidamente e podem consumir uma parcela relevante do capital ao longo do tempo.
Já no investimento de longo prazo, em que as operações são menos frequentes, o impacto tende a ser bem menor e, em muitos casos, praticamente irrelevante.
Por isso, antes de escolher uma corretora ou um modelo de corretagem, vale olhar para o seu próprio comportamento como investidor. O que pesa para um perfil pode ser quase irrelevante para outro.
Como escolher corretora com base na corretagem?
Corretagem zero não significa custo zero
Mesmo sem cobrar corretagem, toda operação envolve custos inevitáveis, como os emolumentos da B3.
Além disso, corretoras podem compensar a ausência de corretagem de outras formas.
Um exemplo comum é o rendimento do saldo em conta. Se uma corretora remunera 80% do CDI e outra 100%, essa diferença pode gerar uma perda maior ao longo do tempo do que o valor pago em corretagem.
Avalie o custo total, não apenas a corretagem
Ao comparar corretoras, considere o conjunto completo de fatores, como:
- corretagem (ou ausência dela);
- rendimento do saldo em conta;
- taxas de outros produtos utilizados;
- qualidade e estabilidade da plataforma;
- atendimento e suporte;
- variedade de produtos disponíveis.
Uma corretora com corretagem baixa, mas plataforma ruim ou atendimento ineficiente, pode sair mais cara no longo prazo.
Leve em conta seu perfil de investidor
O peso da corretagem varia conforme o perfil:
- day traders precisam de plataforma rápida e estável, e custos muito baixos. Assim, corretagem e emolumentos são decisivos.
- investidores de longo prazo podem priorizar variedade de produtos, usabilidade e qualidade das informações.
- iniciantes tendem a valorizar educação, conteúdo e suporte. O custo é relevante, mas não deve ser o único critério.
Outros fatores além do custo
Além do preço, é essencial avaliar a segurança da corretora, sua regulação pela CVM, histórico de atuação e solidez financeira.
A qualidade da plataforma e do atendimento também pesa na experiência do investidor, pois sempre podem surgir dúvidas ou problemas operacionais.
Corretagem zero: vantagens e desvantagens
O modelo de corretagem zero se popularizou nos últimos anos, mas ele tem pontos positivos e limitações que precisam ser avaliados com cuidado:
Como corretoras ganham dinheiro com corretagem zero?
Mesmo sem cobrar pela execução das ordens, as corretoras monetizam de outras formas:
- Rebates da B3: a bolsa devolve parte dos emolumentos às corretoras que geram maior volume de operações.
- Rendimento do saldo em conta: enquanto o investidor recebe, por exemplo, 80% do CDI, a corretora pode aplicar esse dinheiro a 100% e ficar com a diferença.
- Venda de outros produtos: fundos de investimento (com taxa de administração), previdência privada, produtos estruturados e crédito.
- Serviços pagos: assinaturas de relatórios, análises exclusivas ou plataformas mais avançadas.
Quando vale a pena?
Esse modelo costuma ser vantajoso para:
- iniciantes com capital menor;
- investidores de longo prazo que fazem aportes regulares;
- quem diversifica em muitos ativos;
- pessoas que evitam manter saldo parado na corretora.
A principal vantagem é a flexibilidade: é possível investir valores baixos — como R$ 50 em uma ação — sem que o custo da corretagem consuma parte relevante do capital.
Quando pode não valer a pena
Em alguns casos, a corretagem zero pode sair mais cara no total:
- Investidores que mantêm grandes saldos em conta podem perder mais com menor rentabilidade do saldo do que economizam em corretagem.
- Se a corretora oferece poucos produtos ou uma plataforma inferior, a economia no custo não compensa.
- Traders muito ativos podem preferir corretoras especializadas, que cobram corretagem, mas oferecem execução mais rápida, estabilidade e, em alguns casos, rebates.
Modelos de receita alternativos
Além da corretagem zero, existem outros formatos no mercado:
- Assinaturas mensais, com acesso a relatórios, análises e ferramentas avançadas.
- Modelo freemium, com funcionalidades básicas gratuitas e recursos pagos.
- Corretoras com assessoria, que cobram um percentual sobre o patrimônio em troca de acompanhamento personalizado.
No fim, não existe um modelo melhor para todos. Existe o modelo mais adequado ao seu perfil, à sua forma de investir e às suas necessidades.
Como reduzir custos de corretagem?

Escolher corretora adequada ao seu perfil
O primeiro passo é alinhar a corretora ao seu comportamento como investidor. Avalie com que frequência você opera, quanto costuma manter em conta e quais produtos utiliza.
Quem opera pouco e mantém saldo elevado deve priorizar melhor rentabilidade do saldo do que corretagem zero.
Já investidores mais ativos devem priorizar custos baixos por operação, mesmo que outras taxas sejam ligeiramente maiores. Esse “encaixe” reduz o custo total no longo prazo.
Concentrar operações
Sempre que possível, concentre os aportes. Em vez de fazer várias compras pequenas, avalie realizar menos operações com valores maiores.
Isso reduz o número de ordens e, consequentemente, o gasto com emolumentos — mesmo quando a corretagem é zero.
Claro, essa decisão deve respeitar a diversificação da carteira. Economizar centavos não compensa assumir risco excessivo.
Evitar operações excessivas
Cada operação tem custo, por menor que seja. Rebalanceamentos frequentes sem critério, vendas e recompras desnecessárias ou trades impulsivos tendem a corroer o retorno ao longo do tempo.
Tenha uma estratégia clara e opere apenas quando houver motivo técnico ou fundamental.
Reduzir a rotação da carteira costuma ser uma das formas mais eficientes de cortar custos.
Negociar taxas (para grandes volumes)
Investidores com patrimônio elevado ou alto volume de operações podem negociar condições especiais com a corretora.
Descontos, taxas reduzidas ou até rebates são comuns para clientes com maior relacionamento. Vale conversar — no pior cenário, nada muda; no melhor, o custo cai de forma relevante.
Perguntas frequentes
Todas as corretoras cobram a mesma taxa?
Não. Cada corretora define sua própria política de cobrança. Algumas oferecem taxa zero, outras cobram valor fixo ou percentual, e os preços variam bastante entre elas. Por isso, é essencial consultar a tabela oficial de taxas antes de abrir conta.
Corretagem zero é realmente grátis?
Para o investidor, sim: não há cobrança direta. Porém, continuam existindo custos como os emolumentos da B3, e a corretora ganha dinheiro de outras formas, como menor rentabilidade do saldo em conta ou venda de produtos financeiros.
A corretagem pode ser deduzida do imposto de renda?
Sim, de forma indireta. A corretagem, junto com emolumentos e ISS, compõe o custo de aquisição do ativo. Isso reduz o lucro tributável na venda e, consequentemente, o valor do imposto a pagar.
Vale a pena trocar de corretora por causa da corretagem?
Depende do seu perfil. Quem opera com frequência pode economizar bastante ao migrar para uma corretora com taxa zero. Já investidores que operam pouco precisam avaliar se a economia compensa o trabalho e eventuais custos da transferência de ativos.
Conclusão
Por fim, corretagem é o custo cobrado para executar suas ordens na bolsa e, hoje, deixou de ser uma grande barreira para a maioria dos investidores, graças ao avanço da corretagem zero.
Ainda assim, ela não é o único custo da conta: emolumentos da B3, impostos e outras taxas continuam existindo.
O impacto desses custos varia conforme o seu perfil. Quem opera com frequência precisa olhar cada centavo; já no longo prazo, a corretagem tende a pesar muito menos.
Por isso, não faz sentido escolher corretora apenas pelo “zero” da taxa.
O mais importante é entender o custo total, avaliar como você investe e escolher uma corretora alinhada ao seu comportamento e objetivos.
Com isso, você evita taxas desnecessárias e protege seus resultados no longo prazo.