Quando divulgam resultados, muitas empresas também apresentam projeções para o futuro, como receita, margem e investimentos. Esse conjunto de projeções é chamado de guidance.
Ele indica o que a própria empresa espera entregar nos próximos períodos e ajuda investidores a ajustar expectativas, avaliar preços e comparar desempenho ao longo do tempo.
O problema é que essas projeções costumam ser mal interpretadas. Elas não são uma promessa, podem ser revisadas e deve ser analisadas em conjunto com o histórico da empresa, o contexto do negócio e o consenso do mercado.
Por isso, vamos te explicar como usar o guidance de forma mais consciente na análise de investimentos, detalhando seus tipos, formas de divulgação e como interpretá-lo corretamente.
O que é guidance?
Guidance é um termo em inglês que significa “orientação” ou “direcionamento”. No mercado financeiro, refere-se às projeções que a própria empresa divulga sobre seus resultados futuros, com base nas informações disponíveis no momento.
Normalmente, inclui estimativas de receita, lucro, margens, investimentos e volumes operacionais.
Diferente das projeções feitas por analistas, ele parte da administração da companhia — é a empresa dizendo ao mercado o que espera entregar nos próximos períodos.
É importante destacar que guidance não é garantia. Trata-se de uma estimativa baseada em premissas que podem mudar ao longo do tempo. Por isso, os números podem ser atingidos, superados ou não alcançados.
Origem do termo
O conceito surgiu e se consolidou no mercado americano, onde empresas de capital aberto tradicionalmente divulgam projeções trimestrais ou anuais durante apresentações de resultados.
No Brasil, essa prática ganhou força a partir dos anos 2000, com a profissionalização do mercado de capitais e a adoção de padrões internacionais de transparência. Hoje, é comum que empresas médias e grandes listadas em bolsa divulguem guidance ao mercado.
Para que serve?
O guidance serve para alinhar expectativas entre empresa e investidores. Sem ele, o mercado depende apenas de estimativas externas, que podem ser excessivamente otimistas ou pessimistas.
Com a divulgação, a empresa sinaliza o que considera um cenário realista, ajudando a reduzir ruídos e volatilidade causados por expectativas desalinhadas.
Além disso, funciona como um compromisso público: companhias que repetidamente não cumprem o as projeções apresentadas tendem a perder credibilidade junto ao mercado.
Diferença entre guidance e resultados realizados
Guidance é prospectivo — fala sobre o futuro. Resultados realizados são retrospectivos — mostram o que já aconteceu.
Quando a empresa divulga um balanço, está reportando números realizados. Quando apresenta expectativas para os próximos trimestres ou anos, está fornecendo guidance.
Investidores comparam esses dois pontos para avaliar a execução da estratégia: resultados abaixo do guidance podem sinalizar problemas; acima, indicam desempenho melhor que o esperado.
Tipos de guidance
As empresas podem divulgar diferentes tipos de guidance, dependendo do setor em que atuam e das informações mais relevantes para o mercado.
De receita
Refere-se à projeção de faturamento esperada para um determinado período. Pode ser apresentada como um valor absoluto — por exemplo, entre R$ 10 bilhões e R$ 11 bilhões — ou como taxa de crescimento, como uma expansão de 15% a 20% em relação ao ano anterior.
A receita indica o tamanho da operação e a capacidade de gerar vendas, sendo um tipo de guidance comum em setores como varejo, tecnologia e serviços.
De lucro
Nesse caso, a empresa projeta sua lucratividade futura, geralmente por meio de métricas como EBITDA, lucro operacional ou lucro líquido.
As estimativas podem ser divulgadas em valores absolutos ou em forma de margem, como margem EBITDA entre 25% e 28%.
Esse tipo de guidance é essencial para avaliar a qualidade do crescimento. Afinal, uma empresa pode aumentar a receita e, ainda assim, apresentar piora na rentabilidade.
De investimentos (CAPEX)
O guidance de CAPEX mostra quanto a empresa pretende investir em expansão, manutenção ou modernização de seus ativos.
Ele ajuda a entender a estratégia de crescimento e as necessidades de capital.
CAPEX elevado pode sinalizar expansão agressiva ou renovação de ativos, enquanto CAPEX mais baixo pode indicar uma fase de consolidação.
Esse tipo de guidance é mais utilizado em setores intensivos em capital, como infraestrutura, indústria e telecomunicações.
Qualitativo x quantitativo
O guidance quantitativo apresenta números ou intervalos claros, permitindo análises objetivas e comparações ao longo do tempo.
Já o qualitativo utiliza descrições mais genéricas, como “crescimento moderado” ou “margens estáveis”. Embora traga contexto, ele oferece menos precisão e menor compromisso mensurável, o que reduz sua utilidade para análises mais rigorosas.
Como as empresas divulgam guidance?

O guidance costuma ser divulgado ou atualizado em momentos específicos e por canais formais, voltados ao mercado e aos investidores.
Apresentações de resultados
O canal mais comum são as divulgações de resultados trimestrais ou anuais. Além dos números realizados, muitas empresas confirmam, revisam ou detalham as projeções para os períodos seguintes.
Essas apresentações normalmente trazem uma seção dedicada a “Perspectivas” ou “Outlook”, onde o guidance é apresentado junto com suas premissas, como câmbio, crescimento econômico ou condições de mercado.
Teleconferências com investidores
Após a divulgação dos resultados, as empresas realizam teleconferências (conference calls) com analistas e investidores.
Nelas, os executivos comentam os números, explicam as projeções e respondem perguntas.
Muitas vezes, é nesse momento que surgem detalhes importantes sobre riscos, incertezas e sensibilidade das projeções.
As calls costumam ser gravadas e ficam disponíveis ao público.
Fatos relevantes
Quando há uma mudança relevante no guidance fora do calendário normal, a empresa pode divulgar um fato relevante.
Isso ocorre, por exemplo, quando uma projeção precisa ser revista de forma significativa devido a eventos inesperados.
Revisões desse tipo costumam ter impacto direto no preço das ações, justamente por alterarem as expectativas do mercado.
Frequência de divulgação e atualização
No Brasil, é comum que empresas forneçam guidance anual, com atualizações trimestrais durante a divulgação de resultados.
Algumas companhias também apresentam projeções de longo prazo, geralmente em eventos como o Investor Day. Outras adotam uma postura mais conservadora e divulgam apenas guidance qualitativo ou de curto prazo.
Vale lembrar que a divulgação de projeções não são obrigatórias: trata-se de uma prática voluntária, adotada conforme a política e a transparência de cada empresa.
Como interpretar o guidance?
Para interpretar o guidance corretamente, você deve olhar além dos números divulgados. É preciso analisar formato, contexto e histórico da empresa. Entenda:
Range x número específico
Guidance divulgado em range (por exemplo, R$ 5 bilhões a R$ 5,5 bilhões) oferece flexibilidade à empresa e é o formato mais comum.
Ranges muito amplos indicam maior incerteza sobre o futuro, enquanto ranges estreitos sinalizam maior previsibilidade.
Já um número específico aumenta o grau de compromisso, mas também o risco de frustração caso o cenário mude.
Em geral, bons guidances usam ranges razoáveis — nem excessivamente largos, nem excessivamente rígidos.
Guidance conservador x agressivo
Empresas têm estilos diferentes de projeção. Algumas adotam postura conservadora, projetando resultados mais baixos e superando-os com frequência. Outras divulgam projeções mais agressivas e acabam revisando para baixo ao longo do tempo.
Conhecer o histórico é fundamental. Empresas que superam consistentemente o guidance tendem a ser mais cautelosas. Já aquelas que raramente o cumprem podem estar sendo otimistas demais ou enfrentando problemas de execução.
Premissas e condicionantes
Guidance sempre vem acompanhado de premissas, ou seja, hipóteses sobre o cenário em que a empresa espera operar. Entre as mais comuns, estão:
- preço de commodities, taxa de câmbio e inflação;
- crescimento econômico;
- ausência de novas aquisições.
Se essas premissas não se confirmarem, as projeções naturalmente perdem validade. Por isso, avalie se os pressupostos adotados fazem sentido frente ao cenário econômico e ao consenso de mercado.
Histórico de cumprimento da empresa
O fator mais importante é o track record da empresa.
Companhias que historicamente cumprem ou superam o guidance constroem credibilidade. Já aquelas que repetidamente frustram expectativas tendem a perder a confiança do mercado, independentemente dos números divulgados.
Acompanhar esse histórico ajuda a separar projeções confiáveis daquelas que não são.
Por que empresas revisam o guidance?
O guidance não é definitivo. Ao longo do ano, ele pode ser revisado para cima ou para baixo conforme novas informações surgem. Veja:
Mudanças no cenário macroeconômico
O ambiente econômico influencia diretamente os resultados das empresas.
Uma desaceleração da economia, por exemplo, pode reduzir a demanda e levar à revisão do guidance de receita. Por outro lado, uma inflação mais alta pressiona custos e pode afetar as margens.
Variáveis como juros, câmbio e preços de commodities também impactam as projeções. Quando essas mudanças são relevantes, a revisão do guidance é natural.
Desempenho acima ou abaixo do esperado
Se a empresa entrega resultados melhores do que o previsto nos primeiros trimestres, pode revisar o guidance para cima.
Em contrapartida, quando o desempenho fica abaixo do esperado, a administração costuma ajustar as projeções antes que a diferença vire uma surpresa negativa no fim do período.
Alterações regulatórias ou setoriais
Mudanças em leis, regulações ou decisões judiciais podem alterar significativamente as perspectivas do negócio.
Novos subsídios, incentivos fiscais ou regras mais favoráveis tendem a melhorar projeções. Já restrições regulatórias ou aumento de exigências costumam levar a revisões para baixo.
Eventos inesperados
Fatores imprevisíveis — como pandemias, conflitos, desastres naturais, greves prolongadas ou recalls relevantes — podem comprometer o planejamento original.
Nesses casos, o mercado tende a ser mais compreensivo, pois se trata de eventos fora do controle da gestão.
Como o mercado reage ao guidance?
A reação do mercado às projeções depende, principalmente, da comparação com as expectativas que já estavam embutidas no preço da ação.
Guidance acima das expectativas
Quando a empresa divulga um guidance melhor do que o consenso de analistas esperava, a reação costuma ser positiva.
Nesse caso, o mercado é surpreendido para cima: as perspectivas de receita, margem ou lucro ficam melhores do que o previsto, aumentando o valor esperado dos fluxos de caixa futuros — e, consequentemente, o preço da ação.
Guidance abaixo das expectativas
Se o guidance vem pior do que o esperado, a reação geralmente é negativa.
O mercado reprecifica a ação porque passa a esperar resultados mais fracos no futuro. Quanto maior a diferença em relação às expectativas, mais intensa tende a ser a queda.
Confirmação do guidance anterior
Quando a empresa apenas confirma o guidance já divulgado, a reação costuma ser neutra.
Ainda assim, o contexto importa. Se havia dúvidas sobre a execução, a confirmação pode ser vista como positiva. Se o mercado esperava uma revisão para cima, a ausência dela pode gerar frustração.
Retirada do guidance
Em cenários de alta incerteza, algumas empresas optam por retirar o guidance. Isso ocorre quando não há visibilidade suficiente para projetar resultados com responsabilidade.
A retirada aumenta a incerteza para investidores e costuma pressionar as ações no curto prazo.
Ainda assim, é preferível suspender o guidance a divulgar projeções pouco confiáveis que precisariam ser revistas drasticamente depois.
Como usar guidance nas suas decisões de investimento?

O guidance pode ser uma ferramenta essencial nas suas decisões de investimento, desde que interpretada com critério e dentro de um contexto mais amplo. Veja como usá-la:
Comparar guidance com consenso de mercado
O guidance, sozinho, diz pouco. O ponto-chave é compará-lo com o consenso dos analistas — ou seja, o que o mercado já esperava.
Se estiver alinhado, a informação tende a já estar precificada. Se vier acima ou abaixo do consenso, pode gerar reprecificação das ações.
Avaliar realismo das projeções
Nem todo guidance tem o mesmo grau de confiabilidade.
Empresas de setores mais previsíveis, como utilities e saneamento, costumam ter projeções mais estáveis.
Já setores voláteis, como commodities, varejo ou tecnologia, lidam com maior incerteza.
Analise se as premissas fazem sentido e ajuste as expectativas quando as projeções parecerem otimistas demais.
Acompanhar cumprimento ao longo do tempo
Compare, trimestre a trimestre, os resultados realizados com o guidance divulgado.
Empresas que entregam consistentemente o que prometem ganham credibilidade. Já desvios recorrentes podem indicar problemas de execução ou projeções irreais, permitindo ao investidor revisar expectativas e decisões antes do encerramento do período.
Não confiar cegamente no guidance
Guidance não é promessa. Cenários mudam, eventos inesperados acontecem e empresas podem errar.
Use essas projeções como complemento, junto com análise fundamentalista, contexto setorial e posicionamento competitivo. Desconfie de guidances “bons demais” — otimismo excessivo costuma cobrar seu preço.
Limitações e críticas ao guidance
Apesar de ser uma ferramenta útil, o guidance possui limitações importantes e é alvo de críticas por esses motivos:
Pode induzir foco excessivo no curto prazo
Guidance trimestral ou anual pode induzir a gestão a priorizar o cumprimento de metas de curto prazo.
Assim, decisões estratégicas de longo prazo — como investimentos em P&D ou expansão de capacidade — podem ser adiadas para não comprometer números projetados.
Esse fenômeno, conhecido como short-termism, é frequentemente criticado por investidores.
Não por acaso, algumas empresas optaram por abandonar a ferramenta para reduzir esse viés.
Risco de manipulação de expectativas
Gestões podem adotar um guidance excessivamente conservador para depois “surpreender” positivamente o mercado.
Em outros casos, podem divulgar projeções otimistas para sustentar o preço da ação, inclusive em períodos em que executivos realizam vendas de participação.
Nessas situações, o guidance deixa de ser um instrumento de transparência e passa a funcionar como ferramenta de gerenciamento de expectativas. Avaliar o histórico da empresa e os incentivos da gestão ajuda a identificar esses padrões.
Incertezas impossíveis de prever
O futuro envolve variáveis que estão fora do controle das empresas, como crises econômicas, mudanças regulatórias abruptas ou rupturas tecnológicas.
Quando as premissas centrais do guidance se mostram incorretas, a projeção perde valor informacional e pode até gerar uma falsa sensação de previsibilidade.
Em ambientes de elevada incerteza, o guidance tende a ser menos útil — e, em alguns casos, mais prejudicial do que benéfico.
Perguntas frequentes
Empresas são obrigadas a divulgar guidance?
Não. A divulgação é voluntária no Brasil e na maioria dos mercados. As empresas são obrigadas apenas a comunicar fatos relevantes, como mudanças materiais nas expectativas. Fornecer números prospectivos é uma escolha estratégica para melhorar a comunicação com investidores e alinhar expectativas.
O que acontece se a empresa não cumpre o guidance?
Não há penalidade legal, pois guidance não é uma promessa vinculante. Se o descumprimento for pequeno e bem explicado, o mercado pode relevar. Mas falhas grandes ou recorrentes afetam o preço da ação e corroem a credibilidade da gestão, podendo até gerar pressão por mudanças.
Guidance é a mesma coisa que projeção de analistas?
Não. Guidance é a projeção divulgada pela própria empresa, enquanto estimativas de analistas são independentes. Analistas consideram o guidance, mas utilizam seus próprios modelos e premissas. O consenso de mercado é a média dessas projeções e serve de referência para avaliar o guidance da empresa.
Vale a pena investir apenas com base no guidance?
Não. Guidance é apenas uma parte da análise e não substitui o estudo dos fundamentos da empresa. Ele indica intenções e expectativas, mas não garante execução nem sucesso. Use o guidance para ajustar cenários, sempre combinado com uma análise completa e crítica.
Conclusão
Por fim, guidance é a forma como as empresas comunicam ao mercado o que esperam entregar no futuro, por meio de projeções de receita, lucro, margens e investimentos.
Quando bem usado, ajuda a alinhar expectativas e reduzir ruídos na análise dos resultados.
Mas essas projeções não devem ser lidas isoladamente. É essencial comparar o guidance com o consenso do mercado, avaliar as premissas adotadas e observar o histórico de cumprimento da empresa.
Por isso, encare o guidance como uma ferramenta de apoio; não como promessa nem como base única para investir.
Ao combiná-lo com análise fundamentalista e visão crítica do negócio, você toma decisões mais conscientes e evita cair em expectativas irreais.
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