CFDs: o que são contratos por diferença e como funcionam

CFDs, ou Contratos por Diferença, são instrumentos financeiros usados para especular sobre a variação de preços de ativos como ações, índices, moedas e commodities.

Nesse tipo de operação, você não compra o ativo em si. Você firma um contrato que replica apenas a diferença de preço entre a abertura e o fechamento da posição.

Esse formato chama atenção porque permite operar mercados globais com pouco capital inicial e uso de alavancagem. Por isso, aparece com frequência em plataformas voltadas a investidores iniciantes.

O que muitos não percebem é que esse mesmo modelo aumenta o risco de forma significativa. Perdas podem acontecer rapidamente, custos nem sempre são claros e o produto não segue as mesmas regras de investimentos tradicionais.

No Brasil, CFDs não são regulados pela CVM, justamente pelos riscos envolvidos e pelo histórico de prejuízo para a maioria dos investidores.

A seguir, entenda como os CFDs funcionam, porque envolvem riscos elevados e quais alternativas existem para investir de forma mais segura!

O que são CFDs?

CFD é a sigla para Contract for Difference, ou Contrato por Diferença. Trata-se de um instrumento financeiro derivativo usado para especular sobre a variação de preço de um ativo, sem comprá-lo de fato.

Na prática, um CFD é um acordo entre você e uma corretora. Nesse acordo, vocês trocam a diferença de preço de um ativo entre o momento de abertura e o de encerramento da operação.

Se o preço se move a seu favor, você lucra. Caso se mova contra você, você perde.

O ponto mais importante é que, em um CFD, você nunca é dono do ativo. Está apenas especulando sobre a variação do preço.

Imagine um CFD sobre ações da Apple, por exemplo.

Você abre uma posição de compra quando a ação está a US$ 150.

Se fecha a posição quando o preço chega a US$ 160, o lucro é de US$ 10 por contrato.

Se, em vez disso, o preço cair para US$ 140, o prejuízo é de US$ 10 por contrato.

Independentemente do resultado, você nunca teve ações da Apple. Não tem direitos de acionista, não recebe dividendos e não participa da empresa. Está apenas especulando sobre a variação do preço.

Como funciona um contrato por diferença

Ao operar CFDs, você está basicamente apostando com a corretora sobre para onde o preço de um ativo vai.

O funcionamento segue três pilares principais:

  1. Margem: você deposita apenas uma parte do valor total da operação.
  2. Alavancagem: a corretora “empresta” o restante, permitindo que você controle posições muito maiores do que o capital investido.
  3. Resultado multiplicado: ganhos e perdas são calculados sobre o valor total da posição, não sobre o dinheiro que você depositou.

Se o preço se move a seu favor, o lucro é multiplicado pela alavancagem. Caso se move contra você, o prejuízo também é multiplicado.

A corretora é a sua contraparte direta. Quando você ganha, ela paga. Quando você perde, ela recebe. Esse modelo cria um conflito de interesse grave, que veremos adiante.

Origem e histórico dos CFDs

Os CFDs surgiram no Reino Unido, na década de 1990, voltados inicialmente a investidores institucionais.

O objetivo era permitir exposição ao mercado de ações sem a incidência de alguns impostos sobre transações.

Com o tempo, o produto foi adaptado e passou a ser oferecido ao público em geral. A combinação de alavancagem alta, baixo capital inicial e facilidade de acesso impulsionou sua popularização.

Ao mesmo tempo, começaram a surgir perdas expressivas entre investidores de varejo. Diante desse histórico, reguladores de diversos países passaram a impor restrições severas ou proibições completas.

No Brasil, a CVM proibiu a oferta de CFDs ao público em 2021.

CFDs x investimento tradicional em ações

Apesar de parecerem semelhantes à primeira vista, CFDs e ações funcionam de formas bem diferentes.

Ao investir em ações reais:

  • você se torna sócio da empresa;
  • pode receber dividendos;
  • pode manter o investimento por tempo indeterminado;
  • não há alavancagem embutida na operação.

Ao operar CFDs:

  • você não é dono do ativo;
  • não recebe dividendos reais;
  • paga custos diários para manter a posição aberta;
  • opera com alavancagem automática, o que aumenta o risco.

Enquanto as ações são instrumentos de investimento, CFDs são instrumentos de especulação de curto prazo.

Como funcionam os CFDs na prática?

Alavancagem em CFDs

A alavancagem é o principal atrativo dos CFDs — e também o maior risco.

Na prática, ela permite controlar um valor muito maior do que o dinheiro que você deposita como garantia.

Com alavancagem de 10:1 (dez para um, ou seja, você controla dez vezes o valor investido), ao investir US$ 100, você movimenta US$ 1.000 em ativos.

Com alavancagem de 100:1 (cem para um), os mesmos US$ 100 dão exposição a US$ 10.000.

Isso significa que um movimento de 1% a seu favor pode gerar um ganho de 10% ou 100% sobre o capital investido.

Por outro lado, um movimento de 1% contra você gera uma perda da mesma proporção.

Com alavancagens muito altas, oscilações pequenas do mercado são suficientes para zerar a conta em poucos minutos. Algumas plataformas oferecem 200:1 ou até 500:1, níveis que tornam o risco extremamente elevado para investidores iniciantes.

Posições long (compra) e short (venda)

Nos CFDs, você pode lucrar tanto com a alta quanto com a queda de um ativo.

Na posição de compra (long), você ganha se o preço subir. Na posição de venda (short), você ganha se o preço cair.

Essa flexibilidade costuma ser apresentada como vantagem. Na prática, porém, ela aumenta a exposição ao erro.

Você passa a operar movimentos de curto prazo, em mercados voláteis, onde prever a direção correta é difícil mesmo para profissionais.

Margem e garantias

A margem é o valor que você deposita como garantia.

Se o mercado se move contra você, essa margem vai sendo consumida. Ao atingir um limite mínimo, a corretora pode fechar sua posição automaticamente, consolidando o prejuízo.

Em movimentos bruscos, isso pode acontecer em minutos — ou até enquanto você dorme.

Algumas plataformas oferecem proteção contra saldo negativo, mas isso não elimina o risco de perder 100% do capital investido.

Custos de manutenção (overnight fees)

CFDs possuem custos diários para manter posições abertas, conhecidos como overnight fees ou swap.

Essas taxas são cobradas todos os dias e se acumulam ao longo do tempo. Mesmo que o preço do ativo fique estável, os custos podem corroer a posição gradualmente.

É um dos aspectos menos destacados no marketing, mas com grande impacto no resultado final.

Ativos disponíveis para negociar via CFDs

Investidores acompanhando desempenho recente de ativo para fazer CFDs com mais probabilidades de sucesso

Ações e índices

É possível negociar CFDs sobre ações de empresas globais como Apple, Tesla, Amazon e Google, além de companhias europeias e asiáticas.

Também há CFDs sobre índices como S&P 500, Dow Jones, Nasdaq, FTSE, DAX e Ibovespa. 

Em todos os casos, você não compra as ações nem os contratos reais, mas sim especula sobre a variação de preço.

Moedas (Forex)

Os CFDs permitem operar pares de moedas como EUR/USD, GBP/USD e USD/JPY, entre centenas de outros.

O mercado forex via CFDs é enorme e costuma ser a porta de entrada de muitos iniciantes — justamente onde grande parte perde dinheiro rapidamente.

Alavancagens podem chegar a 500:1, o que significa que um movimento de apenas 0,2% contra a posição pode zerar toda a conta.

Commodities

Também é possível negociar CFDs sobre ouro, prata, petróleo, gás natural e commodities agrícolas.

Novamente, não há posse do ativo físico: trata-se apenas de uma aposta sobre a oscilação de preços firmada com a corretora.

Criptomoedas

CFDs de Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas são bastante populares.

O problema é que, além da volatilidade natural das criptos, soma-se a alavancagem dos CFDs — uma combinação que frequentemente resulta em perdas rápidas e severas.

Vantagens aparentes dos CFDs

O marketing de CFDs costuma destacar benefícios que soam atraentes, principalmente para iniciantes. No entanto, cada “vantagem” esconde riscos relevantes.

Alavancagem alta

A alavancagem permite controlar grandes valores com pouco capital. Com US$ 100, é possível movimentar US$ 10.000 ou mais. Se a operação der certo, os ganhos parecem impressionantes.

O problema é que a mesma alavancagem multiplica as perdas, e a maioria dos iniciantes foca apenas no potencial de ganho, ignorando o risco real.

Possibilidade de lucrar na queda

CFDs permitem operar vendido (short), ou seja, ganhar quando o mercado cai. Em teoria, isso amplia as oportunidades.

Na prática, prever movimentos de curto prazo é extremamente difícil. Ter duas direções possíveis não dobra as chances de ganhar — muitas vezes apenas dobra as chances de perder.

Acesso a diversos mercados

Com uma única conta, é possível operar ações, moedas, commodities, criptos e índices globais.

Embora isso pareça conveniente, acesso sem conhecimento é perigoso. Em vez de perder dinheiro em um mercado, o investidor pode perder em vários ao mesmo tempo.

Investimento inicial baixo

É possível começar com US$ 50 ou US$ 100, valores muito inferiores ao necessário para investir diretamente nos ativos reais. Isso atrai pessoas com pouco capital — justamente as mais vulneráveis.

Capital pequeno combinado com alavancagem alta costuma ser a forma mais rápida de destruir o pouco dinheiro disponível.

Riscos graves dos CFDs

Perda superior ao capital investido

Em determinadas situações, é possível perder mais do que foi depositado. Se a corretora não oferecer proteção de saldo negativo e o mercado se mover violentamente contra você, pode acabar devendo.

Imagine investir R$ 1.000 e terminar com uma dívida de R$ 3.000 — isso já aconteceu com muitos investidores. Mesmo com proteção de saldo negativo, perder 100% do capital já é um prejuízo significativo.

Alavancagem como arma de dois gumes

Uma alavancagem de 100:1 significa que um movimento de apenas 1% contra a posição zera a conta.

Oscilações desse tamanho são comuns no mercado, principalmente em dias voláteis. Com alavancagem alta, não há margem para erro: pequenas variações resultam em perdas totais em segundos.

Custos ocultos e acumulados

Além das taxas overnight, há spreads, comissões e custos de conversão cambial. Esses custos se acumulam e podem consumir os ganhos mesmo quando a direção do mercado está correta. 

Muitas plataformas não deixam esses custos claros, e o investidor só percebe o impacto quando já está operando.

Estatísticas de perdas entre investidores

Na Europa, reguladores obrigam corretoras de CFDs a divulgarem o percentual de clientes que perdem dinheiro.

Os números são alarmantes: entre 70% e 80% dos investidores de varejo têm prejuízo. Em outras palavras, 7 ou 8 em cada 10 pessoas perdem dinheiro.

Isso não é investimento, mas sim um jogo de azar em que a casa quase sempre vence.

CFDs são legais no Brasil?

Regulação e posição da CVM

No Brasil, CFDs não são registrados nem autorizados pela CVM

Em 2021, a autarquia reforçou esse entendimento ao emitir alertas públicos sobre os riscos elevados desses instrumentos e a ilegalidade de sua oferta por corretoras reguladas no país.

Por isso, plataformas brasileiras não podem oferecer CFDs, e as opções disponíveis ao investidor são exclusivamente estrangeiras.

Plataformas estrangeiras e riscos

Muitas corretoras internacionais aceitam clientes brasileiros, mas operam em jurisdições com regulação fraca ou inexistente, frequentemente em paraísos fiscais.

Caso haja problemas com saques, disputas ou fraude, o investidor não conta com a proteção da CVM nem da Justiça brasileira. Recuperar dinheiro nessas situações é extremamente difícil.

Consequências de operar ilegalmente

Operar CFDs não é crime para a pessoa física, mas não há proteção legal.

Se a plataforma desaparecer ou manipular operações, o prejuízo é do investidor. Além disso, você precisa declarar ganhos no imposto de renda — sonegação, sim, é crime. Ou seja, você assume todo o risco sem as proteções de um mercado regulado.

Por que corretoras promovem CFDs?

Se CFDs são tão prejudiciais ao investidor, por que são promovidos de forma tão agressiva?

Modelo de negócio e conflito de interesse

Muitas corretoras de CFDs atuam como market makers, sendo a contraparte direta das operações.

Quando o cliente perde, a corretora ganha. Esse modelo cria um conflito de interesse estrutural: a plataforma lucra justamente com o prejuízo do investidor.

Em alguns casos, as ordens nem chegam ao mercado real. A corretora apenas registra a aposta internamente, de forma semelhante a um cassino, onde a casa controla as regras e se beneficia da perda do jogador. Não por acaso, entre 70% e 80% dos clientes acabam tendo prejuízo.

Marketing agressivo

Para sustentar esse modelo, o marketing costuma destacar ganhos rápidos e irreais, como transformar R$ 100 em R$ 10.000. As estatísticas reais de perda, os custos envolvidos e os riscos do produto raramente recebem o mesmo destaque.

Esse tipo de propaganda mira principalmente investidores iniciantes, que ainda não compreendem como o produto funciona nem os conflitos de interesse por trás das plataformas.

Alertas de reguladores mundiais

Na Europa, reguladores passaram a impor restrições severas às corretoras de CFDs, como limites de alavancagem e exigência de transparência.

Essas medidas foram adotadas após um histórico consistente de prejuízos entre investidores de varejo, o que levou autoridades a tratar CFDs como produtos de alto risco.

Alternativas mais seguras aos CFDs

Investidor preocupado após operação de contrato de diferença se mover contra posição alavancada

Se você quer alavancagem ou especular sobre preços, existem alternativas reguladas e menos perigosas que CFDs. Conheça as principais:

Mercado futuro brasileiro

A B3 oferece contratos futuros como mini índice e mini dólar, com alavancagem moderada e negociação em mercado regulado.

As corretoras não são contraparte direta das operações, o que aumenta a transparência. Ainda é arriscado e não indicado para iniciantes, mas é legal e mais seguro que CFDs.

Opções

As opções permitem estratégias direcionais com risco limitado ao prêmio pago. São negociadas em bolsa, reguladas e transparentes, embora exijam conhecimento técnico.

Investimento direto em ações

Comprar ações reais, sem alavancagem, continua sendo a forma mais sólida de construir patrimônio no longo prazo.

Não há risco de zerar a conta com pequenas oscilações, e as perdas são limitadas ao capital investido.

ETFs alavancados

Existem ETFs que replicam variações alavancadas de índices (2x ou 3x).

Eles são negociados em bolsa, têm regras claras e não exigem margem. Ainda são arriscados e não indicados para longo prazo, mas são alternativas reguladas a quem busca alavancagem.

Perguntas frequentes

Por que CFDs são tão populares se são tão arriscados?

CFDs se popularizaram por causa de marketing agressivo, promessas de ganho rápido, abertura fácil de conta e baixo capital inicial. Muitos iniciantes veem anúncios com lucros, não com perdas, e só entendem o risco depois de perder dinheiro. Popularidade, nesse caso, reflete a eficiência de marketing — não segurança ou qualidade do produto.

É possível ganhar dinheiro com CFDs?

Tecnicamente, sim: uma minoria de investidores consegue lucro. Porém, mesmo entre esses, os ganhos costumam ser pequenos ou temporários, e a consistência no longo prazo é rara. A pergunta mais honesta não é se é possível ganhar, mas qual a probabilidade — e ela é muito baixa.

CFDs são a mesma coisa que forex?

Não exatamente. Forex é o mercado de câmbio; CFDs são contratos que permitem especular sobre preços, inclusive de moedas. No varejo, quando alguém fala em “operar forex”, geralmente está se referindo a CFDs sobre pares de moedas, que carregam os mesmos riscos e problemas de outros CFDs.

Conclusão

Em resumo, CFDs são Contratos por Diferença usados para especular sobre preços sem possuir o ativo, com alavancagem elevada e acesso fácil a vários mercados.

A princípio, esse produto parece atrativo, principalmente para quem tem pouco capital.

O problema é que essa mesma estrutura amplia o risco de forma extrema. A maioria dos investidores perde dinheiro, a alavancagem pode zerar uma conta rapidamente e, no Brasil, esses instrumentos não são autorizados pela CVM, deixando o investidor sem proteção legal.

Além disso, o modelo de negócio das corretoras cria conflitos de interesse e o marketing costuma minimizar custos e riscos reais.

Se o seu objetivo é investir de forma consistente, existem caminhos muito mais seguros e regulados, como ações, ETFs, opções ou o mercado futuro brasileiro.

Antes de buscar atalhos e promessas de ganhos rápidos, vale priorizar instrumentos legais, compatíveis com seu perfil e focados no longo prazo.

Artigos Relacionados

Porque assinar a nossa newsletter?

Notícias Notícias

Os nossos analistas realizam uma curadoria cuidadosa das principais notícias sobre a bolsa de valores e nós te enviamos, por e-mail, a visão da VG Research sobre como isso pode impactar os seus investimentos.

Artigos Artigos

Tenha acesso a artigos completos e detalhados, toda a semana, sobre os principais temas relacionados à investimentos, empresas e economia.

Vídeos Vídeos

Aulas online e gratuitas sobre a bolsa de valores para te ajudar a entender mais sobre o universo das ações e saber tomar melhores decisões com os seus investimentos, sempre com foco em crescimento de patrimônio e aumento da renda passiva.